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Músculos fortes = mais neurônios

  • Foto do escritor: Marina Seixas
    Marina Seixas
  • 23 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Estudos recentes indicam que preservar e construir massa muscular pode estar associado a um envelhecimento cerebral mais saudável


Durante muito tempo, a saúde do cérebro foi discutida quase exclusivamente a partir de fatores como genética, estímulos cognitivos e exercício aeróbico. Nos últimos anos, porém, a ciência começou a olhar com mais atenção para outro tecido que envelhece junto com o cérebro e que pode ter um papel relevante nesse processo: o músculo.


Pesquisas recentes sugerem que a quantidade de massa muscular e a distribuição da gordura corporal, especialmente a gordura visceral, estão associadas à chamada “idade aparente do cérebro”, um indicador obtido por exames de imagem e análises computacionais avançadas. Em outras palavras, o estado do corpo pode refletir e possivelmente influenciar o estado do cérebro ao longo do envelhecimento.



O que significa “idade aparente do cérebro”


A idade cronológica indica quantos anos uma pessoa viveu. Já a idade aparente do cérebro é estimada a partir de exames de ressonância magnética, comparando a estrutura e o volume cerebral de um indivíduo com grandes bancos de dados populacionais.


Cérebros que apresentam características estruturais semelhantes às de pessoas mais jovens são considerados “mais jovens” do ponto de vista biológico. O oposto também é verdadeiro: cérebros com padrões associados ao envelhecimento acelerado tendem a apresentar maior risco de declínio cognitivo precoce.


Estudos recentes utilizaram algoritmos de inteligência artificial para estimar essa idade aparente e investigaram quais características corporais estariam associadas a ela.



Mais músculo, cérebro aparentemente mais jovem


Em uma pesquisa conduzida por cientistas da Washington University School of Medicine, dados corporais e exames cerebrais de mais de mil adultos de meia-idade foram analisados em conjunto.


Os pesquisadores observaram que pessoas com maior volume de massa muscular tendiam a apresentar cérebros com aparência estrutural mais jovem.


O achado permaneceu consistente mesmo após ajustes para idade cronológica e outros fatores. Importante destacar: trata-se de uma associação, não de uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, o padrão observado reforça uma hipótese que vem ganhando força na literatura científica.



O papel oposto da gordura visceral


Enquanto a massa muscular esteve associada a uma aparência cerebral mais jovem, a gordura visceral mostrou o efeito contrário.


A gordura visceral, aquela acumulada profundamente na cavidade abdominal, é metabolicamente ativa e está associada a processos inflamatórios sistêmicos. Estudos anteriores já relacionaram esse tipo de gordura a maior risco cardiovascular, resistência à insulina e inflamação crônica de baixo grau.


Nos estudos sobre envelhecimento cerebral, maiores proporções de gordura visceral estiveram associadas a cérebros com aparência mais envelhecida, enquanto a gordura subcutânea não apresentou a mesma relação. Isso sugere que não é apenas a quantidade de gordura corporal que importa, mas onde ela está localizada.



Músculos como órgão metabólico e sinalizador


Uma das explicações plausíveis para essa associação está no fato de que o músculo não é apenas um tecido mecânico. Ele atua como um órgão endócrino ativo, liberando substâncias conhecidas como mioquinas durante a contração muscular.


Essas moléculas podem:

  • modular processos inflamatórios

  • influenciar o metabolismo energético

  • atravessar a barreira hematoencefálica ou atuar indiretamente sobre o cérebro


Ao mesmo tempo, o excesso de gordura visceral libera adipocinas pró-inflamatórias, que podem afetar negativamente o ambiente metabólico e, potencialmente, o tecido cerebral.



O que já se sabe sobre exercício e cérebro


A relação entre exercício físico e saúde cerebral não é nova. Estudos clássicos mostram que a atividade física aumenta os níveis de BDNF (brain-derived neurotrophic factor), uma proteína envolvida na sobrevivência neuronal, plasticidade sináptica e formação de novos neurônios.


Grande parte dessa evidência veio de estudos com exercício aeróbico. No entanto, pesquisas mais recentes passaram a investigar o papel específico do treinamento de força e da preservação da massa muscular, especialmente na meia-idade, fase considerada crítica para a prevenção de demências futuras.



Treinamento de força ao longo do envelhecimento


A perda progressiva de massa muscular é um fenômeno esperado com o avançar da idade, conhecido como sarcopenia. Esse processo tende a se intensificar a partir da meia-idade e está associado a piora funcional, metabólica e inflamatória.


O treinamento de resistência é atualmente a estratégia mais eficaz para:

  • preservar ou aumentar massa muscular

  • reduzir gordura visceral

  • melhorar sensibilidade à insulina

  • modular inflamação sistêmica


Os achados recentes sugerem que esses benefícios podem se estender também ao cérebro, ainda que os mecanismos exatos estejam em investigação.



Limites dos estudos e o que ainda precisa ser investigado


É fundamental reconhecer as limitações dessas pesquisas. A maioria dos estudos disponíveis é observacional, o que impede conclusões definitivas sobre causalidade. Ter mais músculo não “garante” um cérebro mais jovem, assim como perder gordura visceral não assegura proteção cognitiva isoladamente.


Ainda assim, as associações observadas são biologicamente plausíveis e coerentes com um corpo crescente de evidências sobre metabolismo, inflamação e envelhecimento cerebral.



A mensagem prática até aqui


A ciência não aponta atalhos, mas reforça uma direção clara: cuidar da saúde muscular ao longo da vida não é apenas uma questão estética ou funcional. Pode ser parte de uma estratégia mais ampla de envelhecimento saudável, que inclui o cérebro.


Preservar músculos, reduzir gordura visceral, manter-se ativo e evitar o sedentarismo parecem ser peças de um mesmo quebra-cabeça complexo, multifatorial e profundamente interconectado.


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Fontes


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